Pode ser uma coincidência. Entretanto, o vitorioso Márcio Vitória possui conquistas e vitórias em sua carreira; termos que se encaixam e tem ligação com seu sobrenome, Vitória. Márcio Ricardo Vitória – um dos renomados preparadores físicos do Rio Grande do Sul -, é natural de Novo Hamburgo, mas praticamente adotou a cidade de Pelotas como uma de suas preferidas. Fez amigos, e curte o futebol da Princesa do Sul. Aos 33 anos, foi juntamente com Gilmar Gasparoni – o Suca – e direção, um dos responsáveis por salvar o Brasil de Pelotas do rebaixamento do campeonato Gaúcho deste ano. Possui passagens pelo Novo Hamburgo, Glória, Sapiranga – em 2003/2004 quando o clube ainda estava em atividade -, Pelotas, Chapecoense/SC, Caxias, Guarani de Venâncio Aires, Operário/MT e Brasil. Foram três acessos do campeonato Gaúcho da série B para principal. Novo Hamburgo em 2000, dois anos depois pelo Glória, e quatro mais tarde no Guarani/VA. No futebol pelotense, não conseguiu subir com o Pelotas em 2005, mas, foi dos que contribuíram para o não rebaixamento do rival, Brasil, recentemente. Agora, está acertado com o clube, e pronto para iniciar um novo trabalho na Copa Federação Gaúcha de Futebol. A seguir, confira entrevista concedida para o Futebol na Rede, via e-mail, pelo preparador físico.
1- Futebol na Rede: São três acessos do campeonato Gaúcho da série B para A. Qual o segredo?
Márcio Vitória: Muito trabalho e comprometimento com a causa maior que é a instituição, além de projetos bem planejados e executados. Com o clube proporcionando aos profissionais condições de trabalho, tanto a nível estrutural como nas convicções de que o trabalho esta no rumo certo. Sempre costumo dizer que este campeonato é um dos mais difíceis, pois além de longo, ele é muito desgastante. De nada vale as campanhas nas fases anteriores, pois as fases subseqüentes sempre começam do “zero”. O grupo tem que estar permanentemente focado e motivado para alcançar uma das duas vagas (campeão ou vice) que são as únicas colocações que dão ao clube o objetivo final que é o acesso.
2- FNR: Subiste com o Novo Hamburgo, Glória e Guarani de VA. Qual a conquista mais complicada. Por quê?
Márcio Vitória: Sem dúvida todas tem o seu grau elevado de dificuldade, assim como suas particularidades. Mas, a do Glória em 2002 foi a mais difícil, pois nossa equipe teve muitas oscilações principalmente no hexagonal final. Foi um projeto que envolveu valores numerários elevados onde foram feitos investimentos desde a estrutura do clube passando pela formatação do grupo e pelas condições que foram dadas aos profissionais. Tínhamos que conviver com a fama de “tio patinhas” da série B e isso motiva de forma acentuada os adversários. Aí vem toda aquela dramaticidade do jogo contra o Brasil em Pelotas onde estávamos vendo todo um trabalho ir por água abaixo, mas, quando tudo parecia perdido encontramos forças para numa falta sermos premiados com a vaga. Enfim todos já sabem tudo que aconteceu naquele jogo. Mas, a campanha deste ano no Gauchão no Brasil, também pode ser colocada junto com estas outras conquistas pois a equipe atuava com uma margem de erro muito pequena e os adversários eram de qualidade. Basta salientar que tivemos que vencer o campeão gaúcho para que saíssemos da situação desconfortável que nos encontrávamos. Mesmo assim, necessitávamos de pontos na partida final contra o Caxias, esta campanha coloco num patamar de igualdade ou até mesmo num grau de dificuldade maior que as outras citadas.
3- FNR: Em 2005, fizeste a dobradinha com Suca no Pelotas na Segundona Gaúcha. O Lobo acabou sendo eliminado pelo Sapucaiense em jogo fatídico. Tem alguma explicação? Na tua visão alguns jogadores tiraram o "pézinho"?
Márcio Vitória: Fizemos uma campanha excelente. Perdemos apenas três partidas na competição, na segunda fase nos classificamos com duas rodadas de antecipação de forma invicta, mas ai quando vimos tivemos que decidir um ano de trabalho em um jogo nas condições que todos já sabem. Alguns atletas sentiram a responsabilidade do jogo e de atuarem com a maioria dos torcedores na casa do adversário, cercados de toda obrigação e do peso que era colocado nos ombros de todos naquele momento. Tanto que, se tivéssemos nos classificado tínhamos com certeza subido. Mas, no futebol não existe o “se”, então amargamos ao meu ver uma desclassificação prematura.
4- FNR: Neste ano, ficaste pouco mais de 2 meses no campeonato Gaúcho da Série A, e de novo com Suca - porém agora no Brasil de Pelotas - conseguiram reverter uma situação praticamente impossível e mantiveram o xavante na elite do futebol do Rio Grande do Sul. Suca falou em volta por cima, porque anteriormente havia amargado eliminações no futebol Pelotense - a de Sapucaia por exemplo -, e para ti Márcio, o que representou esta situação?
Márcio Vitória: Uma consolidação do trabalho com obtenção de resultados. Quando cheguei a grande maioria me falava que a situação era irreversível, porém com uma forte mobilização de todos os setores do clube desde o pessoal da manutenção (que cuida do gramado) até a presidência - todos sabiam que era necessário fazer mais - e ai quando um clube de apelo como o Brasil se mobiliza, o resultado é imediato. Mas, o grupo de atletas sem dúvida foi o maior responsável com um grau de comprometimento individual e coletivo maravilhoso, atuando de maneira responsável com o clube, sua história e sua razão maior, o torcedor do Brasil. Sobre o Suca, ele é merecedor desta campanha pois é um profissional competente e sério que nunca se omitiu das situações que o Brasil enfrentou na competição até mesmo na minha contratação. Ainda bem que o futebol tem a capacidade de ser justo com as pessoas que são sérias na vida e na profissão e o Suca é uma delas. Infelizmente no futebol pessoas criam seus próprios conceitos. Aí entra aquela história que o futebol tem memória curta ou melhor não tem memória, ou por acaso alguém citou a campanha que o Suca fez no Pelotas na fase final do Gauchão de 2001 e que classificou o clube para a Copa do Brasil e a Copa Sul-Minas? É por isso que quem trabalha com o futebol tem que matar sempre uma “série” de Leões por dia.
5- FNR: Tens mágoas do futebol de Pelotas? O que mais te surpreendeu neste futebol?
Márcio Vitória: De forma alguma. Sou um profissional muito gratificado e honrado em ter trabalhado no Pelotas e no Brasil. Duas agremiações que são reconhecidas no futebol gaúcho e brasileiro e pelo apelo de seus torcedores e da imprensa, pela excessiva cobrança que é feita aos profissionais que atuam no futebol pelotense o que faz com que você coloque seus conhecimentos de forma permanente no trabalho. Só tenho boas lembranças, muitos amigos e um tratamento maravilhoso das pessoas de Pelotas para comigo e para com meus familiares que gostam demais da cidade e se sentem muito bem aqui. Sempre procurei em todos os lugares por onde passei ser comprometido, trabalhador e responsável. Em Pelotas não foi diferente, por isso penso que aqui tenho o respeito da maioria das pessoas ligadas ao futebol e ao esporte em geral.
6- FNR: Sobre a carreira, foram passagens pelo futebol gaúcho, Catarinense e do Mato Grosso. Existem diferenças nos estados em relação ao futebol e a cultura de cada localidade. Quais as semelhanças? Dos três, qual o melhor mercado para se trabalhar, na tua visão?
Márcio Vitória: Cada estado tem seus aspectos sócio-econômicos, mas, o futebol gaúcho ainda esta na frente por ter três clubes na série A do Campeonato Brasileiro. A história dos nossos clubes, os profissionais gaúchos que se destacam a nível nacional e os títulos conquistados a nível nacional e internacional fazem com que o futebol gaúcho seja respeitado em todo Brasil. O futebol mais parecido com o gaúcho destes que trabalhei é o Catarinense a nível organizacional. O campeonato catarinense é muito bem planejado. Já no futebol do Mato Grosso trabalhei num clube muito desorganizado porém existem alguns clubes organizados mas ainda estão longe de participarem até mesmo de uma série B do Brasileiro. Basta observar que nem nesta divisão o futebol de lá tem representantes. Sobre o mercado todo ele é bom desde que o profissional tenha condições de trabalho, estando alicerçado e amparado por pessoas que planejem e façam o futebol com seriedade, colocando também sua qualidade como profissional e pessoa.
7- FNR: E as tuas pretensões quais são? Que mercado buscas? Dá para pensar em exterior?
Márcio Vitória: Sempre busco situações melhores, o futebol como toda outra atividade não é diferente. Busco de forma diária um crescimento profissional e isso passa por um trabalho em uma série B ou série A do Campeonato Brasileiro. Isto proporciona ao profissional uma evolução a nível de trabalho e de maturidade. Já um trabalho fora do país é um objetivo também constante, pois proporciona ao profissional uma evolução cultural, profissional e financeira. Por isso este é um objetivo que na minha modesta opinião todo profissional deve buscar. Porém, sei que as oportunidades - ás vezes, ou quase sempre - surgem através de muito trabalho e de preparação permanente para que quando esta aparecer, estejamos plenamente preparados.
8- FNR: Sempre como preparador físico. Para sempre? Até quando?
Márcio Vitória: Enquanto tiver energia para passar vibração e motivação, pretendo atuar ainda durante um bom tempo como preparador físico. Já penso em outra função no futebol, mas ainda tenho muitos objetivos a alcançar nesta função que para mim é extremamente gratificante e desafiadora.
9- FNR: Alguns profissionais depois preferem exercer outras funções dentro do futebol, mas seguem com ele. E contigo como será?
Márcio Vitória: Uma função administrativa como coordenador de futebol, ainda é uma idéia muito precoce, mas, que num futuro distante ainda pretendo realizá-la.
10- FNR: Para encerrar, quais foram os técnicos que te marcaram neste período de profissional?
Márcio Vitória: Todos. Desde o primeiro até o último com que irei trabalhar sempre serão importantes. Sempre procurei aprender com os técnicos com quem trabalhei, pois comecei cedo e com 25 anos já trabalhava na categoria profissional. Isso me obrigou a desde cedo aprender a escutar a voz da experiência, mas, sem deixar de colocar as minhas idéias em prática já desde os primeiros momentos de minha carreira.
Texto: Felipe Machado
Foto: Jota Éder
Entrevista concedida ao repórter Felipe Machado, via e-mail, especial para o Futebol na Rede.